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domingo, 10 de maio de 2009

O novo espiritismo


Hoje inicio um novo blogue. Chama-se Espírito das Escadas e serve para colocar crónicas escritas por mim todos os domingos.

Elas mereciam uma casa própria...

Para visitar cliquem AQUI ou na imagem...

Passem por lá e não sejam meigos na crítica!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Crosta

Todas as feridas magoam. Sejam elas físicas, psicológicas ou emocionais...
Também comum a todas elas, por mais pequenas, profundas e recônditas que sejam, deixam uma marca permanente. Que até se pode esquecer até ao momento em que ao espelho:
"Olha, ali estás tu."
Mas antes de haver cicatriz há crosta. Milhões de plaquetas enlaçadas para criar uma camada de tecido que substitua o que foi danificado. Os fumadores e roedores de unhas queixam-se de ter a "fixação oral" de entreter a boca com qualquer coisa.
Nós, como espécie, temos em comum a "fixação dolorosa" de puxar, arranhar e arrancar a crosta das nossas feridas. E volta a sangrar como da primeira vez podendo já ser visível algum do tecido rosado que emergirá da ferida.
É como no livro Fight Club... Lá a personagem Marla e a forma como assombra o narrador leva a que seja descrita como "a arranhadela no céu da boca que sarava se eu parasse de passar lá a língua."

Essa insistência no dano, na vontade de doer só mais um bocadinho, de relembrar como fica a cor do nosso sangue mesclado de lágrimas só prejudica a cicatrização e a futura reabilitação do tecido.
E quando ao espelho vemos a cicatriz que se tornou perene e mais visível como se fosse uma daquelas flores marcadas no corpo que nascem connosco, porque com todo o sofrimento repetido ela metastizou e acastanhou, não vamos falar com uma marca vagamente conhecida mas sim com uma colega de quarto, uma hóspede parasítica:
"Bom dia, parece que vais viver cá muito tempo... Não me dás férias?"

segunda-feira, 30 de março de 2009

...

Tão difícil é deixar-te os olhos marejados de reticências e os ouvidos vãos das palavras que mais querias ouvir ditas em exclamações. Que difícil é fazer um parágrafo nas nossas mãos, mudar a página dos dedos, passando de par para impar.
O difícil que é deixar os teus braços abertos dessa forma que lembra um nó por atar sem objectivo ou utilidade, que se separa ao mínimo puxão da corda mesmo não tendo lá nada amarrado.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Lá longe

Se dúvida houvesse do cansaço em que tinhamos caído ela toda se dissiparia por eu saber que estava, mesmo tendo-te ali à distância de uma camisa que se quisesse se desabotoava, a imaginar um filme diferente do que dava na televisão e uma música diferente da que usavas para te alienar da arrumação da casa. No fundo quase conseguia palpar outro tecto, quase conseguia saborear outra boca, quase conseguia cheirar outra coisa que não o cheiro barrento do pó suspenso, fruto da tua mania de não comprar swiffer como te recomendei. Tudo isso quase mas não bem. Sempre ao lado como um dos teus cozinhados com pouco sal ou sal a mais.
Pergunto-te. "Sabes a Ana Moura"
Respondes que sim, que tem ela.
Então disse-te que ela tinha uma música em que falava com a mãe e em que dizia que já não tinham fome nem a saudade de a não ter.
Claro que não conhecias. Não era single de passar na rádio nem surgia numa qualquer telenovela. Como havias tu de conhecer.
Então disse-te que também eu me sentia assim. Já não era infeliz mas por outro lado sentia falta desse tempo em que o era. Ao menos aí sentia alguma coisa e não precisava de me alhear da situação. Desfrutava da dor como o Johnny Cash (que também não conhecias) que dizia que se concentrava na dor por ser a única coisa real.
Não perguntaste mais nada porque não percebeste que nunca me percebias e que nesse preciso momento, mesmo estando a falar contigo, estava longe dali a pensar numa música que me dizia mais que tu.
Já não me lembro qual era. Mas tu não conhecias de certeza.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Pause

No fim de semana fui ver Revolutionary Road...Lá, a personagem April Wheeler, interpretada pela Kate Winslet infalível do costume, anda meio filme a pedir para se calarem um bocadinho e a deixarem pensar. Ou simplesmente a deixarem em paz de todo não sei bem...
O que sei é que cresci no meio dos jogos de computador e que em todos eles posso fazer uma pausa se me chamarem para o jantar ou se tiver de cumprir uma das obrigações fisiológicas. Em alguns deles posso até fazer restart e quando as coisas não correm de feição tenho uma nova tentativa. (Já cresci bastante, juro, e encontrei alegria no perder sem batota...)
Talvez por isto tantas vezes me apeteça fazer pause, mute não que me parece muito mal educado. O problema é que tantas vezes o pedimos como outras tantas encontramos do lado de lá uma resistência à pausa ou ao silêncio. E dá-me a impressão também que, tão mal habituados que estamos, caso encontremos alguém que nos diga ok, faz o que precisares no tempo que necessitares ficamos pensativos no nosso canto sobre a falta de resistência encontrada. E deixamos de querer o tal interregno que parecia fulcral, como se fosse ao suprimir um par de batidas que conseguiamos salvar um coração em abrandamento.
No meio disto tudo o mais asfixiante é saber que esse intervalo nunca bastará, chegará ao fim por ditadura de datas acordadas ou respeito para outrém e estará tudo na mesma dentro de 49 horas. No fundo parece-me não haver intervalo pendente que seja simultaneamente justo e eficaz.
Mantendo o paralelismo com os jogos, será que a única solução é fazer save dos nossos recordes e desligar a consola? Talvez até ao dia em que já não nos lembramos como se joga aquele jogo específico, todas as suas combinações de teclas que dão pontos extra e salas de bonus que conseguimos desbloquear...
Tanta glória privada e solitária que nem a uma falha de corrente parece sobreviver.

Se puderem ir ao cinema ver este filme vão. Eu fui Sábado e ele ainda está a passar em loop cá dentro...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Um dia depois de teres ido...

No dia seguinte à tua partida exibi-te.
Estendi panos e cartazes, cobri de vinís brancos com a tua cara os edifícios mais escuros, projectei slides à maneira antiga nos edifícios mais brancos. Abri-te à cidade que nos viu crescer...
E tal é a pureza da tua face rosada larga de sorriso naquela fotografia que tu tinhas na parede, tal foi a quantidade de meios usados para te mostrar que ninguém sequer questionou se eu estava autorizado a fazer o que fiz.
Seria publicidade? Seria uma declaração de amor?
Todos apontavam com dedos mal educados para os prédios cobertos e os muros com o novo graffitti de ti. Tiravam-se fotos com o telemóvel e enviava-se aos amigos. Os mais românticos entendiam a sorrir para o chão.
Em todo o lado multidões...
'Alguém sabe quem ela é?'
Os capitães dos aviões que chegavam do sul, exactamente a direcção para a qual partiste, anunciavam o estranho cartaz no topo do Pavilhão Rosa Mota, ligeiramente distorcido de convexidade, com uma bela jovem portuguesa.
Os espanhóis repletos de 'miras'
Os franceses cheios de 'ohh la las'
Os chineses carregados de máquinas fotográficas vão levar-te com eles para casa naquela vista aérea e mostrar aos amigos pasmados de admiração.
Na ponte D. Luís e na da Arrábida dois panos a roçar o rio... Os cruzeiros que ontem subiam e desciam despreocupadamente hoje paravam na dúvida de passar. Também lá os turistas refilavam admirados com semelhante profanação dos monumentos que não igualam os dos postais.
'É brincadeira.'
'É nova demais para ser política.'
'É parecida com a da televisão. Aquela que...'
Lá para as 12 horas chega a segunda vaga. Junto ao mar, na Foz que nos uniu, cinquenta fogões refogavam em caçarolas gigantes a infusão de orquídeas, pêssegos e açúcar amarelo que melhor copiavam o teu aroma. O vento arrastou-o, como previsto, para dentro da cidade numa neblina invisível e abrangente com gradações de intensidade. E se o visível da tua cara foi polémico não houve qualquer contestação ao teu aroma. Cheios de inspirações fundas todos os portuenses reconheceram a falta que lhes ias fazer sem o saberem. Todos procuravam com cabeças balançantes o aroma que desvanecia quando uma rajada mais forte o afastava.
De todo o lado tu. O que era mais reconhecível de ti. Uma ultima inundação...
O que consegui reproduzir.
Não encontrei música que te descrevesse, nem mesmo entre as nossas. Não encontrei gravações da tua voz em lado nenhum.
Também não encontrei tecido, casca de fruta ou papel que simulasse com exactidão a textura da tua pele. O seu calor e imperfeições.
Tudo é demasiado rugoso ou frio ou liso ou drapejante.
Porque tu não eras mais nem menos. Eras aquilo.

Para copiar o teu sabor encontrei pêras. Não só era o sabor habitual do teu hálito como todas aquelas grainhas tinham o tamanho exacto das tuas papilas gustativas. Numa receita de Compal de pêra clássico dissolvido numa razão de duas partes de água para uma e meia de sumo encontrei a espessura exacta da tua saliva.
E se eu controlasse as chuvas faria cair torrencialmente este sumo semidesactivado para que todas as pessoas te pudessem saborear lentamente. Engarrafar-te e levar-te para casa. Servir-te como refresco tal como quando chegavas nos meses de verão e parecias transportar a primavera inicial contigo de arrasto. Todos poderiam sentir o pegajoso do sumo açucarado colar na sua pele como os teus beijos colavam na minha naquelas manhãs intransmissíveis.
E queimava de ciúme por saber que todos sabiam os segredos de ti, com excepção do som da voz e do toque da pele, mas tu és grande demais para te encerrar. És um segredo que não posso esconder. Não aguento ter-te aqui fechada para sempre só para mim.
Nascemos de tantas partilhas que o nosso fim nunca podia ser solitário...

Um dia depois de teres ido embora, a cidade foste toda tu em êxtase.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

És o meu olímpo

Foi a ouvir a Rosa Mota e o Carlos Lopes contar o bem que ainda se lembram dos seus momentos de glória, das imagens, sons, cheiros e tudo o mais que sentiram nos seus dias coroados a dourado. Dias estes tão distantes no tempo.

Foi aí que pensei... Será que daqui a 10, 20 anos ainda me lembrarei tão bem da luz que fazia naquele nosso dia maior? O cheiro do céu cinzento pelo chão, o leve chicotear dos teus cabelos na minha cara, a visão da tua face entorpecida pelo nevoeiro sem paisagem naquela ponte dos postais.
Será que depois de tudo o que se vai passar nestes próximos anos terei tão presente como ainda tenho agora o sabor da tua respiração nos meus lábios e o calor deles mesmos no meu pescoço, enquanto sorrias apertada a mim, nessa tal primeira vez em que me elevaste a campeão olímpico de ti?

Não me deixaste medalha nem ramo de oliveira... Mas trago-te tão na cabeça como bem colada ao peito.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Baixas

De nada adianta usar o mais sofisticado fato à prova de bala, de placas de cerâmica ou Kevlar, com capacete anti-bomba incluído se, no bolso (mais no esquerdo que no direito) da camisa, mantemos distraidamente um engenho explosivo de fragmentação lá colocado com a discrição de um cavalo de troia.
Convencemo-nos que estamos imunes e protegidos. Confiamos nas rudes muralhas erectas, nos nossos estratagemas de defesa anti-invasão e, na pior das hipóteses, no nosso digno plano de retirada.
Os nossos fieis Homens, soldados rasos e generais em igualdade, já desertaram há muito pois este caminho é para ser percorrido por um só homem. O mesmo que será agraciado com honras de estado e medalhas de honra correndo tudo bem. Mas que também pode ser votado a um estéril degredo se fraquejar.
A ilusão de segurança já não me encanta ou engana ou encerra.
Por isso mesmo largo a armadura, deito ao chão o capacete e me sento.
É comigo já em roupa civil que revelo as minhas mãos despidas.
Uma aberta na tua direcção. A outra a segurar pela testa a cabisbaixa cabeça que olha para o chão.

Sabes que te aguardo.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sabes...

...não voltou a amanhecer tão luminoso um dia dos meus como aquele recentemente nosso no qual o quarto em forma de prisma aguçado se iluminava pela luz baça filtrada pela janela suspensa por cima das nossas almofadas e pelo teu ombro descoberto que por estar tão perto da minha boca teve de levar uma mordidela e um beijo de bom dia.
O Sol é o mesmo cá como foi lá. É substituível.
Os teus ombros é que me faltam.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Impressões digitalizadas

Dizem que as cartas perderam a alma... agora que são digitais e normalizadas são todas iguais.
Pode mudar o tipo de letra, o tamanho, a qualidade da escrita... Mas jamais poderemos dizer a alguém que tem uma letra bonita ou que carrega demasiado nas letras maiúsculas. Nunca mais conseguiremos perceber quando alguém nos enviou uma carta que escreveu a chorar ou que em raiva amarrotou a folha.
Mas, na verdade, o caminho que as palavras tomam é o mesmo... Nascem da inteligência ou da emoção e saem pela ponta dos dedos. É costume se falar da beleza e significado das mãos mas, quer usando as tintas feitas a partir de rochas calcárias dos homens neolíticos ou o código binário de que cada email é feito... sem os dedos nada seria comunicado.

Foi também com eles que palmilhei o teu corpo... de alto a baixo. De Este a Oeste. Circumnaveguei-te pisando todos aqueles pontos que fui marcando... São esses mesmos dedos que melhor conhecem a profusão sinestecta da tua temperatura, do teu aroma e do teu sabor. Foram eles os meus utensílios de leitura quando a mim te revelaste como se um livro em Braille fosses.
Plana e inerte nos espaços do entretanto.
Deliciosamente voluptuosa nos locais de leitura obrigatória.
E eu li alguns capítulos e gostei. Voltei a lê-los com mais calma. Em repetições esquizofrénicas citei as tuas melhores frases na minha cabeça. Sublinhei a tinta da china as expressões que me inspiraram. Marquei-te com uma fita de veludo azul na minha página preferida.

Assim, quando retornar a ti, já sei onde te recomeçar. Vou saber onde te deixei. Contigo na mão, levo-te para um jardim e consumo o resto de ti. E ao chegar à tua última página saberei se a nossa história encontra um fim ou se estas personagens ainda têm inspiração para mais volumes.

Até lá vou-te escrevendo cartas. À mão.
E, embora a minha letra seja medonha, tu pareces gostar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Lado B

Todos os semáforos vermelhos. As canetas secas. Todos os velhos solitários da cidade a dar de comer aos pombos e a namoriscar prostitutas ao meio dia.

Os pés frios e molhados, o nariz gelado e a pingar.
Os parques infantis cheios de silêncio pela ausência ensurdecedora da alegria das crianças.

O meloso e repisado cliché que esta ultima frase foi...

O fim das pilhas do mp3. Uma sms cujo envio falhou. Ir à máquina do café, pedir um cappucino e só sair o leite e a colher.

Ver um convite recusado ou receber um convite que só me apetece recusar.
Esquecer o pin do multibanco no fim das compras do mês...

Chegar tarde a casa e não dizer nada a ninguém. Porque não há ninguém para falar ou porque não há nada mesmo a dizer.

Ou ambos.

A noite quente e eu a dormir.

O dia gelado e as obrigações que me arrastam pela rua.

O validador do passe no autocarro que não funciona depois de me ter levantado tão cedo só para o ir carregar.

Tomar banho à meia noite e só depois perceber que a toalha ainda não secou do duche da manhã.

Uma cárie.

Surpreender as pessoas não porque fiz bem mas porque me achavam incapaz de tamanhos feitos.

Receber uma carta pelo correio pela primeira vez em meses e ter o nome mal escrito no destinatário.

Melhor ainda! receber 4 e-mails! QUATRO!
Aumente o seu pénis.
Engrosse o seu pénis.
Ganhou a lotaria da Irlanda.
Viagra a 99 cêntimos.

Carregar no botão snooze 5 vezes cada manhã sempre na esperança de parar ou fazer recuar o tempo. Não muito. Só para dormir aqueles 9 minutos extra que farão toda a diferença.

Encontrar algo de belo, fantástico, sublime e depois... bem, depois não encontrar o ângulo de camera perfeito. A iluminação já esbateu. E partiu a oportunidade de imortalizar aquele momento que só eu vi.
E a memória já não é das melhores...

Ser perfeccionista mas a anos-luz de perfeito.
Ser exigente.
Ser divertido.
Ser o que estou hoje.
Escrever aqui só porque me apetece.

"This is your life, and it's ending one moment at a time." Chuck Palahniuk

"God's in his heaven, all is right with the world" Neon Genesis Evangelion

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Chagas

Quando eu era pequeno usava as minhas cicatrizes como medalhas…
“Isto aqui (ferida com crosta no cotovelo) foi a jogar futebol”
“Esta (corte de 3 centímetros no joelho) foi a andar de bicicleta”
“Isto (mão partida em 2 sítios diferentes) foi a aprender a patinar”
Assim contava aos meus amigos… E assim fui crescendo até me tornar naquele ser amargo que descobriste...
Quando te conheci devolveste-me a juventude. Aos poucos foste amolecendo o granito que segurava os meus músculos… Como troca tinha eu de usar as tuas cicatrizes. Sarar na transferência para mim as tuas dores e maleitas.
Voltei à infância. Tomei as tuas cicatrizes e mostrava, em delírio febril, a forma como elas me consumiam e maceravam.
Fomos felizes.
Mas num dia rebelde nós crescemos. Amadureceram as nossas emoções. A nossa paixão tornou-se no hábito de “estar junto”. E as tuas feridas, que pensei serem passageiras, revelaram-se chagas de surgimento regular e infecto. De um cheiro e textura assustadoramente putrefactos. O material de que são feitos os pesadelos a transbordar de mim para fora.
Deixei de as usar com orgulho.
Escondi ou tas devolvi.
E nesse momento, quem sabe de bonança após tempestade, fiz-te eu uma chaga. Do alto da tua garganta até ao final do teu útero. E pudesse eu não a ver para ficar, assim, sem sentir o cheiro podre que deixei a emergir de ti… Assim não veria os teus órgãos tão vulneráveis… Não veria a tua seiva rubra escorrer até esses pés que tantas vezes venerei…
Escondesses-te tu para que eu pudesse mostrar de novo a minha altivez…
Egoísmo eu sei. Mas que somos nós mais que aventureiros a solo na procura do outro que nos descubra?
Num dia conformista encontrarás um homem maior que eu. Com mais espaço, tempo e coragem para as tuas cicatrizes. Que te tratará como mereces.
Que nunca te irá amargurar a boca, virar as costas ou golpear a tua suave pele a golpes de machado.
Que nunca precisará de te pedir perdão como eu o faço agora…

(Imagem retirada do blog Post Secret)

sábado, 10 de novembro de 2007

Causa & Efeito

Chegas de taxi… pagas ao taxista com a soberba e classe típicas de ti.
Digo típicas mas é a primeira vez que te vejo.
É a primeira vez que te vejo mas sinto que já te conheço.
E olhas-me de cima abaixo… a avaliar quem ao longe já te tirou todas as medidas. E as minhas entranhas tremem num trejeito algo inédito… Não que nunca tivesse acontecido mas já tinha esquecido o que uma mulher como tu fazia ao meu corpo. Já me esquecia do que era ter alguém tatuado na mente. Ali mesmo, projectado no hiato existente entre a retina e o meu cérebro. Um fantasma de presença corpórea feito de imaginação e um punhado de ideias pré-concebidas.
Assim sendo sei quem és porque à volta da pessoa que vi desenhei uma personalidade condizente. Uma mulher mais inteligente que eu… com gostos semelhantes mas muito mais requintados. Com ódios muito parecidos mas mil vezes mais intensos e justificados. Uma mulher com que pareço bem mas que deixo parecer mal junto de mim. Pois a tua classe e toque são bem mais apurados e filigranados que a minha forma bruta de passar mais um dia.
E sei que me vais trazer problemas… Sei que vais ser uma dor de cabeça das grandes. Vais-me consumir aos bocadinhos… Vou-me afogar na ilusão do teu amor… Vou sofrer como nunca antes sofri.
Mas se quisesse uma vida pacata não tinha marcado este encontro contigo…

(escrito dia 2 de Outubro de 2007)

sábado, 27 de outubro de 2007

Sentidos

Estávamos ali... Naquele pedaço de relva que escolhemos para fazer um piquenique.
Lá eu disse-te que a brisa trouxe o teu aroma; suave e adocicado como tu. Mas com um travo a especiarias e algo indeterminado que parecia desenhar cores no ar…
Por falar em desenhos disse-te que adorava te projectar numa folha, numa tela, num tecido daqueles que taparam o Reichstag. Com o meu olhar tiraria um instantâneo da textura do teu corpo que depois transformaria em desenho a carvão, pintura a óleo ou numa escultura de barro com as minhas próprias mãos…
Por falar em mãos referi a migalha de croissant que recolhi do teu tímido queixo. Como de seguida te toquei na face. Senti as imperfeições e a suavidade dos teus pelos microscópicos. Foi com um leve inclinar de pescoço e um ronronar suave que correspondeste positivamente ao meu toque…
Por falar em ronronar revelo-te o quanto o teu som me fascina… A forma como os teus passos ecoam. Como a minha pele vibra levemente quando me segredas algo ao ouvido. Como a tua voz é suave mas inesquecível. Forte mas mesmo assim reconfortante. Como era capaz de te ouvir durante uma noite e mais além.
E foi por falar em voz que tive de falar da tua boca… Como os teus lábios são belos e bem desenhados. Como se tivessem sido feitos por um génio em proporção e simetria.
E como eles, mesmo sendo assim cativantes, nunca me tinham mostrado o seu sabor. Conto-te que quero saber ao que sabes… Que desejo completar a minha lista de sentidos. Digo-te que naquele momento a única coisa em que penso é no sabor da tua saliva. Da sua espessura. Que me questiono sobre quanto mais tempo aguento sem te beijar… Sem te roubar um beijo e não querer saber do teu olhar acusador ou da minha vergonha. Declaro que sem isso não vivo… Não estou completo.
Tu olhas-me com uma expressão que não descodifiquei de imediato e respondes-me daquela forma perfeita que só em ti reconheço…

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

E só a morte nos separou

Escrevi este texto durante o fim-de-semana. Espero que gostem.

Quando o teu pai me ligou eu não soube o que dizer… Um convite para um funeral não é coisa que se espere de alguém que já não vemos há três anos.
Aparentemente morreste. E quem melhor do que eu para receber um convite.
Sabes… os funerais sempre me deram a impressão de serem incrivelmente parecidos com os casamentos. Há as palavras de ocasião, os familiares que já não vemos aos anos e que não param de afirmar quão grandes nós estamos, há as roupas a rigor e por vezes até uns comes e bebes… O mais curioso nisto tudo é que eu já estive quase para casar contigo. A falecida.
E não vou ser um querido só por estares morta. Não vou dizer bem de ti só porque amanhã por esta hora vais ser um monte de cinzas. Nem vou dizer que tenho pena. Um ataque de coração é algo a que gente como tu não devia ter direito… Tudo que fosse melhor que um atropelamento com fracturas expostas do fémur e omoplata direita, fractura com afundamento na parte superior do crânio seguida de duas semanas de coma induzido era lucro. Tu merecias sofrer. Saber que morrerias a qualquer hora e que não irias poder realizar os teus sonhos era o que merecias.
Mas também pode ser a parte fraca e infantil de mim a vir ao de cima. Tu podes-te ter tornado numa grande mulher. Não creio muito nisso já que não vejo ninguém da tua família a chorar baba e ranho e consigo contar os teus amigos com os dedos de uma mão. Mas mesmo assim dou-te o benefício da dúvida. Não sei no que te tornaste durante este tempo.
Isto é o mais parecido com uma carta de amor que escrevi no último ano, daí podes ver a merda que a minha vida tem sido.
Estou a escrever uma carta a uma morta, isto diz bastante sobre a minha sanidade mental.
E se estou aqui neste momento é porque não tenho ninguém à minha espera em casa… isso diz bastante sobre a pessoa que eu sou. Em quem me tornei e o que faço a quem me rodeia.
A verdade é que nunca consegui recuperar da tua perda. Toda a gente que chegou à minha vida depois de ti teve de pagar por coisas que não me fizeram e de que não têm culpa nenhuma. Pensava que já tinhas morrido para mim mas afinal não. Agora que te vejo inertemente deitada nesse caixão tão simples percebo que ressuscitaste coisas que eu pensava já terem sido esquecidas há muito.
Olho para o teu corpo e imagino todas aquelas vezes que te toquei, te amei e consumi. Como adormecia a cheirar o teu cabelo. Como nunca mais beijei lábios tão suaves e delicados.
Porra.
Estou aqui e não te consigo odiar.
Mas hoje consigo pôr um ponto final em ti. Nunca mais te vou ter. Não havendo essa possibilidade posso finalmente seguir em frente com a minha vida.
Não chegamos a ouvir o padre a dizer que só a morte nos separaria mas a verdade é que foi preciso morreres para eu me libertar de ti.
Que possas descansar em paz, minha eterna querida, é tudo o que te desejo.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

O Beijo

Sempre gostei muito de escrever mas o tempo e a originalidade nem sempre são as maiores. E se é para fazer uma porcaria qualquer mais vale estar sentado a ler a porcaria escrita por outros.
Ontem apeteceu-me escrever sobre um tema que me é muito querido. A obsessão e o que nos vai n cabeça enquanto somos politicamente correctos.
É o primeiro texto original que coloco aqui portanto é um momento importante! Esta é uma das razões pelas quais este blog foi criado


O beijo

Beijo-te mais uma vez, a despedida.
A tua cara escorre com suor. Mesmo assim os meus lábios tocam a tua face.
Sinto-te infecta, febril, má para a minha saúde. Sinto-me envelhecer, empalidecer e enrugar só de te tocar na cara. Mas não consigo resistir à cor da tua pele, ao comprimento do teu nariz, à cor e tamanho dos teus olhos. Não consigo resistir à doçura dos teus lábios. Não consigo resistir a este magnetismo que nos aproxima de cada vez que nos vemos ou sentimos.
E tu usas-me.
Levas-me a desejar beijar-te, mesmo sabendo que isso iria ser o nosso fim. Obrigas-me a dramatizar este momento que parece tão simples. E sou forçado a pensar na despedida o resto do tempo que falta até te rever. Esse tempo aleatório de quem não tem data marcada para nada. A mesma aleatoriedade que nos fez aproximar, as variáveis que funcionaram a nosso favor e não aproveitamos em tempo devido. Agora vejo-te na rua, a olhar para uma montra insípida – quase tanto como tu – e penso se me devo aproximar ou não. Se a tua respiração faz bem aos meus pulmões… Se a tua pele não me vai queimar a retina… Se a tua boca não irá abrir a minha alma ao meio e sorver toda a alegria que ainda me resta.
E o que sinto é desejo. Só me fazes mal na minha cabeça. A minha mente não consegue processar toda a informação que esse teu corpinho de metro e sessenta me transmite. Também não o faz com o que esse teu coração com pouco mais de vinte anos já me disse. Precisava de séculos para perceber uma só parte do que tu me transmites. Séculos esses que não tens para mim. O teu B.I. engana, a tua idade vai muito à frente das tuas primaveras e não podes esperar pois não há nada mais triste do que uma jovem velha por dentro.
E eu que, tal como tu, ando tão velho e cansado no interior não deixo que o meu corpo aja conforme a idade e deixo-te falar.
Está tudo bem?
O que tens feito?
Respondo ao que me perguntas e assim ficamos. Sem saber bem o que dizer um ao outro enquanto os nossos olhos conversam animadamente sobre as saudades que sentiam. Aí digo-te que tenho algo para fazer, minto claro, e aproximo-me de ti… o calor da tarde não se compara ao calor que envias da tua respiração. Expiras claro. E tudo o que eu queria era que inspirasses ao me aproximar de ti, talvez assim ganhasse a lata para te beijar como deve ser. Fazendo com que os nossos olhos deixassem de namoriscar e se fechassem para darem maior prevalência aos lábios que te contariam todas as histórias que não te posso contar e para as quais não tens paciência nem tempo.
Beijo-te a cara e parto com a promessa de te dar notícias.
Enquanto me afasto de ti sinto o sal do teu suor nos meus lábios… E sinto medo do que poderá correr nesse suor. Se só com palavras me inebriaste nem imagino o que conseguirás fazer com essências e sabores do teu corpo.
Ao me afastar olho para trás e tu ainda lá estás a olhar para a montra. Desvias o olhar na minha direcção mas não esboças nenhum gesto.
E assim continua a nossa vida… Duas almas em locais afastados, a olhar nos olhos uma do outra mas que paradas na mesma direcção não evoluíram. Eu ficaria ali a olhar-te o resto da minha vida mas virei-me e calquei o caminho todo até casa a pensar que tu também o deves ter feito calmamente na tua direcção.
Oposta à minha.
Como sempre o foi.