terça-feira, 26 de junho de 2007

Apresentando um novo escritor: Chuck Palahniuk

Em 1999 estreia um filme tido como obrigatório para todos os cinéfilos bem como para toda a nova geração de escravos urbanos. Esse filme é Fight Club e conta com as interpretações de Edward Norton , Brad Pitt e da fantástica Helena Bohnam Carter sendo o realizador David Fincher o mesmo de Seven e Zodiac.
O escritor por detrás do argumento do filme é Chuck Palahniuk autor americano com o talento de criar histórias e personagens surreais, chocantes mas surpreendentemente verosímeis.
O seu primeiro livro, Fight Club, não teve grande adesão do público até à estreia do filme, data em que se pode dizer ter nascido um autentico culto. E é isso que ele faz nos livros que lança, faz-nos sentir que, tal como as personagens de Fight Club fazemos parte de um clube restrito, onde todos podem entrar mas nem sempre têm a capacidade e estômago para tal. Em suma, sentimos que sabemos algum segredo que o nosso vizinho do lado nem sonha existir.
Já tem vários livros editados sendo eles, por ordem cronológica:
"Fight Club" - 1996 (Editado em português pela Editorial Noticias com o titulo “Clube de Combate” – Actualmente encontra-se esgotado)
"Survivor" - 1999 (Editado em português pela editora Casa das Letras com o titulo “Sobrevivente”)
"Invisible Monsters" - 1999“” -1999 (Editado em português pela editora Casa das Letras com o titulo “Monstros Invisíveis” )
“Choke” - 2001(Editado em português pela Editorial Noticias com o título “Asfixia”)
“Lullaby” - 2002 (Editado em português pela Editorial Noticias com o titulo “Lullaby, Canção de embalar”)
”Fugitives and refugees, a walk in Portland, Oregon”- 2003
“Diary” - 2003
“Stranger than fiction” ou na versão britânica “Non-Fiction”- 2004
“Haunted”- 2005
“Rant” -2007
"Snuff”- Anunciado para 2008
De notar que os livros “Fugitives and refugees” e “Stranger than Fiction" são relatos verídicos de acontecimentos que tiveram lugar na vida do autor e que justificam a estranheza das personagens dos seus livros. Se as pessoas relatadas nestas duas obras fazem o que fazem na realidade a ficção deixa de ter limites.
Outra curiosidade que me parece importante referir é o facto de um filme baseado na obra “Choke” estar em pré-produção pelo que deverá estrear em meados de 2008.

Como só tenho os livros originais e quero deixar aqui uma parte de uma das obras tive de traduzir uma das minhas histórias preferidas do livro “Haunted”. Este livro é feito de histórias isoladas de um grupo de escritores que se afasta do mundo exterior de forma a terem maior concentração e pela crença de que das grandes dificuldades nascem grandes obras. Tema já abordado em “Diary”.
Esta história chama-se “Guts” e ganhou uma reputação lendária por, em leituras públicas, fazer desmaiar vários elementos do público. Várias explicações foram dadas, havia livrarias muito quentes, sem refrigeração e o público estava muitas vezes de pé. Quando o número de desmaios ultrapassou os 50 surgiu o rumor de que a editora estava a pagar a pessoas para simularem desmaios como uma forma de publicidade. A verdade nunca se soube.
Aqui vai a história:

Tripas
Uma história da autoria de São Livre-de-tripas

Inspira
Inspira tanto ar quanto conseguires
Esta história deve durar mais ou menos o mesmo tempo que tu consegues aguentar a suster a respiração, e aí um pouco mais. Portanto ouve o mais rápido que conseguires.
Um amigo meu, quando tinha treze anos ouviu falar de “pegging”. Isto é quando um um gajo enfia um dildo no rabo. Estimula a próstata com força suficiente e o rumor é que consegues ter orgasmos explosivos em mãos-livres. Nesta idade este meu amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele tem sempre a necessidade de encontrar uma maneira melhor de bater uma. Ele sai para comprar uma cenoura e vaselina. Para conduzir uma pequena pesquisa privada. Aí ele imagina o que iria parecer, a cenoura e vaselina solitárias a deslizar no tapete rolante da caixa na direcção da empregada do supermercado. Os outros clientes à espera em fila, observando. Todos a verem o grande serão que ele tem planeado.
Então, o meu amigo, compra leite e ovos e açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.
Tipo como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura pelo rabo acima.
Em casa ele apara a cenoura até se tornar numa ferramenta romba. Ele aplica a vaselina abundantemente e enfia a cenoura no rabo. Então—Nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece com excepção da dor.
E então a mãe deste miúdo grita que é hora do jantar. Ela diz para ele descer, imediatamente.
Ele tira a cenoura e guarda aquela coisa escorregadia e nojenta no meio das roupas sujas que estão debaixo da cama.
Depois do jantar ele procura a cenoura e esta desapareceu. Todas as roupas sujas, enquanto ele comia, foram recolhidas pela mãe para as levar para lavar. De maneira nenhuma ela conseguiria não ver a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da sua cozinha, ainda brilhante com lubrificante e mal-cheirosa.
Este amigo meu, ele espera meses debaixo de uma nuvem negra, esperando que os seus pais o confrontem. E eles nunca o fazem. Nunca. Mesmo agora com ele crescido, aquela cenoura invisível paira sobre todos os jantares de Natal, todas as festas de aniversário. Todas as buscas de ovos na Páscoa com os seus filhos, os netos dos seus pais, aquela cenoura fantasma plana sobre todos eles.
Aquela coisa má demais para nomear.
As pessoas em França têm uma expressão: “Espirito das Escadas”. Em francês: Esprit d’Escalier. Significa aquele momento quando tu encontras a resposta mas é tarde demais. Imagina que estás numa festa e alguém te insulta. Tens de dizer algo. Então, sob pressão, com todos a ver, tu dizes algo insignificante. Mas no momento em que deixas a festa…
Quando começas a descer a escada, aí—magia. Vem-te à ideia a coisa perfeita que deverias ter dito. A resposta desarmante.
Isso é o Espírito das Escadas.
O problema é que nem os franceses têm uma expressão para as coisas que tu dizes sob pressão. Aquelas coisas estúpidas e desesperadas em que pensas ou fazes.
Algumas acções são baixas demais para terem sequer um nome. Baixas demais para serem faladas.
Olhando para trás, especialistas em psicologia infantil, conselheiros escolares dizem que o último pico em suicídio adolescente aconteceu quando os miúdos tentavam asfixiar enquanto batiam uma. Os seus pais encontravam-nos, uma toalha enrolada à volta do pescoço do miúdo, a toalha atada ao cabide central dos seus roupeiros, os seus filhos mortos. Esperma morto por todo o lado. Claro que os pais limpavam tudo. Vestiam umas calças ao puto. Faziam com que parecesse… melhor. Intencional pelo menos. O tipo habitual de suicídio triste adolescente.
Outro amigo meu, um miúdo da escola, o seu irmão mais velho da marinha contou-lhe como os tipos do médio oriente tocam uma de forma diferente da que nós usamos. O irmão dele está estacionado num país com camelos qualquer onde nos mercados públicos vendem o que podiam ser abridores de carta bonitos. Cada uma destas ferramentas consiste numa vara muito fina de latão ou prata polida, grande como a tua mão, com uma grande ponta no fim, uma bola de metal ou o tipo de pega decorada que se encontram nas espadas. Este irmão marinheiro conta como os árabes põe a sua pila dura e enfiam a varinha de metal a todo comprimento da erecção dentro da pila. Eles batem uma com a vara lá dentro e isso faz com que a masturbação seja muito melhor. Mais intensa.
É este irmão que viaja à volta do mundo, enviando frases francesas. Frases russas. Dicas de masturbação úteis.
Após isto, o irmão mais novo, um dia não aparece na escola. Nessa noite liga para perguntar se posso mandar-lhe os trabalhos de casa nas próximas semanas. Porque ele está no hospital.
Ele tem de partilhar o quarto com velhos que vão fazer operações às tripas. Ele diz como todos têm de partilhar a mesma televisão. Tudo o que ele tem para manter a privacidade é uma cortina. Os pais não o vêm visitar. Ao telefone ele diz como os pais estão capazes de matar o irmão marinheiro dele.
Ao telefone, o miúdo diz-me como—no dia anterior—ele estava um bocado pedrado. Em casa, no seu quarto, estava deitado na cama. Ele estava a acender uma vela e a folhear algumas revistas pornográficas antigas, a preparar-se para bater uma. Isto foi depois de ter falado com o irmão. Aquela dica útil acerca de como os árabes se masturbam. O miúdo olha em volta à procura de uma coisa que possa cumprir a mesma função. Uma caneta é grande demais. Um lápis também é grande e irregular. Mas, a pingar do lado da vela está um bocado fino e liso de cera que é capaz de ser suficiente. Com a ponta de um dedo este puto parte o longo pedaço da vela. Ele enrola-o na palma das mãos. Longa e lisa e fina.
Pedrado e cheio de vontade ele mete-o lentamente para baixo, cada vez mais fundo dentro do buraquinho do mijo da sua erecção. Com um bom pedaço de cera ainda do lado de fora ele mete mãos ao trabalho.
Mesmo agora, ele diz que os Árabes são espertos como o caraças. Eles reinventaram completamente a masturbação. Na horizontal na sua cama, as coisas estão a ficar tão boas que este puto não consegue prestar atenção à cera. Ele está a uma boa apertadela de libertar a sua carga quando a cera já não aparece do lado de fora.
A varinha fina de cera escorregou para dentro. Totalmente para dentro. Tão fundo para dentro que ele nem consegue sentir o alto dentro do seu tubo do mijo.
No andar de baixo a mãe grita que é hora de jantar. Ela diz para ele descer, imediatamente. Este miúdo da cera e o miúdo da cenoura são pessoas diferentes, mas todos nós vivemos basicamente a mesma vida.
É depois do jantar que as entranhas deste miúdo começam a doer. É cera, portanto ele imaginou que talvez derretesse no seu interior e ele a mijasse. Agora as costas doem. Os rins. Ele não consegue andar direito.
Este miúdo a falar ao telefone da cama de hospital, ao fundo consegues ouvir campainhas a tocar, pessoas a gritar. Concursos televisivos.
O raio-X mostra a verdade, alguma coisa longa e fina, dobrada duas vezes dentro da sua bexiga. Este longo e fino V dentro dele está a recolher todos os minerais do seu mijo. Está a crescer e a ficar mais áspero, com uma capa de cristais de cálcio, está a saltar de um lado para o outro, rasgando o interior frágil da sua bexiga. Bloqueando o caminho do mijo. Os seu rins estão sobrecarregados. O pouco que escorre da sua pila é vermelho com sangue.
Este puto, com os seus pais, a sua família inteira a olhar para o raio-x negro, com o médico e as enfermeiras ali de pé, o grande V branco de cera a brilhar para todos verem, ele tem de dizer a verdade. A forma como os Árabes se masturbam. O que o irmão lhe escreveu da marinha.
Ao telefone, neste momento, ele começa a chorar.
Pagaram pela operação à bexiga com o dinheiro da conta destinada a pagar a faculdade. Um erro estúpido e agora ele nunca será um advogado.
Enfiar cenas dentro de ti. Enfiares-te a ti dentro de cenas. Uma vela na tua pila ou a tua cabeça numa forca, nós sabíamos que iria dar problemas.
O que me deu problemas, eu chamava-lhe Mergulho às Pérolas. Isto quer dizer tocar uma debaixo de água, sentado no fundo da piscina dos meus pais. Com uma grande golfada de ar eu nadava até ao fundo e tirava os meus calções de banho. Sentava-me lá em baixo durante dois, três, quatro minutos.
Só de me masturbar tinha uma capacidade pulmonar enorme. Se tivesse a casa só para mim faria isto a tarde toda. Após finalmente expulsar a minha matéria, o meu esperma, ele ficaria ali a flutuar em pingos leitosos grandes e gordos.
Depois disso havia mais mergulho, para apanhar o esperma todo. Para o apanhar e limpar cada mão cheia numa toalha. É por isso que é chamado Mergulho às Pérolas. Mesmo com o cloro havia a minha irmã para me preocupar. Ou, deus-todo-poderoso, a minha mãe.
Costumava ser o meu maior medo: a minha irmã adolescente e virgem, a pensar que estava só a engordar e depois dar à luz um bebe atrasado com duas cabeças. Ambas as cabeças iguais a mim. Eu, o pai E o tio.
No fim de contas nunca é o que te preocupa que te lixa.
A melhor parte do Mergulho às Pérolas era a entrada do filtro da piscina e a bomba de circulação de água. A melhor parte era ficar nu e sentar-me lá.
Como os franceses diriam: Quem não gosta de ter os seus rabos sugados?
Mesmo assim, num minuto és um miúdo a esgalhar uma no outro nunca mais serás um advogado.
Num minuto, estou sentado no fundo da piscina e o céu está ondulado, azul claro através de dois metros e meio de água acima da minha cabeça. O mundo é silencioso com excepção do bater do coração nos meus ouvidos. Os meus calções de banho com riscas amarelas estão amarrados ao meu pescoço por segurança em caso de que um amigo, um vizinho, quem quer que seja apareça a perguntar porque é que faltei ao treino de futebol. A sucção contínua da entrada de água do filtro da piscina agita-se e eu ajusto o meu cu pálido e escanzelado à volta dessa sensação.
Num minuto, eu tenho ar que chegue e a minha pila na mão. Os meus pais estão a trabalhar e a minha irmã tem ballet. Ninguém é suposto chegar num espaço de horas.
A minha mão leva-me quase até ao fim e eu paro. Nado até cima para voltar a inspirar. Mergulho e acomodo-me no fundo.
Faço isto outra e outra vez.
Deve ser por isto que as miúdas se querem sentar na tua cara. A sucção é como dar uma cagadela que nunca acaba. A minha pila está dura e o meu cu a ser sugado, não preciso de ar. O bater do meu coração nos ouvidos, fico debaixo de água até estrelas brilhantes de luz se formem à volta dos meus olhos. As minhas pernas esticadas, a parte de trás de cada joelho assentes no fundo da piscina. Os meus dedos dos pés estão a ficar azuis, os dedos dos pés e das mãos enrugados de estarem na água há tanto tempo.
E então deixo que aconteça. Os pingos brancos começam a jorrar. As pérolas.
É nesse momento que preciso de algum ar. Mas quando me tento impulsionar usando o fundo da piscina, não consigo. Não consigo por os meus pés debaixo de mim. O meu cu está preso.
Os paramédicos dizem que todos os anos 150 pessoas ficam presas desta forma, sugadas pela bomba de circulação de água. Deixa que o teu cabelo comprido se prenda, ou o teu rabo e vais-te afogar. Todos os anos acontece a montes de pessoas. A maioria na Florida.
As pessoas simplesmente não falam disso. Nem mesmo os franceses falam acerca de TUDO.
Levanto um joelho, aninhando um pé debaixo de mim, fico meio levantado quando sinto um puxão no meu rabo. Metendo o outro pé debaixo de mim impulsiono-me na direcção do topo. Estou a mexer as pernas, não toco no chão mas também não estou a ficar mais perto do ar.
Ainda a pontapear a água, dando grandes braçadas com os dois braços, estou talvez a meio da viagem mas não vou mais longe. O bater do coração dentro da minha cabeça fica mais rápido e soa mais alto.
As faíscas brilhantes de luz cruzam os meus olhos, eu olho para trás… mas não faz qualquer sentido. Uma corda grossa, uma espécie de cobra, branco azulada com veias entrelaçadas, surgiu do cano do filtro e agarrou-se ao meu rabo. Algumas das veias estão a verter sangue, sangue vermelho que debaixo de água parece preto e surge de pequenos cortes na superfície da pele pálida da cobra. O sangue desaparece dentro de água e no interior da pele fina branco azulada conseguem-se ver altos de restos de refeições por digerir.
É a única forma em que isto faz sentido. Um monstro marinho horrível, uma serpente marinha, algo que nunca viu a luz do dia, esteve-se a esconder no fundo escuro do filtro da piscina, à espera para me comer.
Então… Eu pontapeio-a toda ela feita de pele fina, elástica, escorregadia e cheia de veias. E parece que mais um pouco deste animal se solta do fundo da piscina. Deve ter mais ou menos o tamanho da minha perna mas mesmo assim está bem apertado no meu rabo. Com outro pontapé fico a um centímetro do ar fresco. Ainda a sentir a cobra apertada no meu rabo, estou um centímetro mais perto da liberdade.
Apertado dentro da cobra podes ver milho e amendoins. Consegues ver uma grande bola laranja brilhante. É o tipo de vitamina em dose cavalar que o meu pai me obriga a tomar para me ajudar a ganhar peso. Para conseguir uma bolsa de estudos de futebol. Com ferro e ácidos gordos ómega-3.
É ver essa pastilha que me salva a vida.
Não é uma cobra. É o meu intestino grosso, o meu cólon arrancado de mim. O que os médicos chamam de “protuberante”. São as minhas tripas que foram sugadas para dentro do cano.
Os paramédicos dir-te-ão que a bomba de uma piscina puxa 300 litros de água por minuto. São mais ou menos 40 quilos de pressão. O grande problema é que estamos todos ligados por dentro. O teu rabo é só o fim longínquo da tua boca. Se eu me deixar ir a bomba continua a funcionar e puxa as minhas entranhas até chegar à minha língua. Imagina expulsar um cagalhão com 40 quilos e aí vês como isto consegue mesmo virar-te do avesso.
O que te posso dizer é que as tuas tripas não sentem muitas dores. Não da forma como a vossa pele sente dor. À matéria que digeres os médicos chamam de matéria fecal. Mais acima está o quimo, bolsinhas de uma porcaria fina com pedaços de milho e amendoins e ervilhas.
Esta sopa de sangue e milho, merda e esperma e amendoins, flutuando à minha volta. Mesmo com as minhas tripas fora do meu rabo, eu agarrando o que ainda resta delas, mesmo aí só penso em voltar a vestir os calções de novo.
Deus me livre de os meus pais me verem a pila.
Uma das minhas mãos está em punho fechado à saída do meu rabo, a minha outra mão agarra nos meus calções de banho de riscas amarelas e tiro-os do meu pescoço. Mas ainda é impossível vesti-los.
Se queres sentir os teus intestinos compra uma caixa de preservativos de pele de carneiro. Tira um do pacote e desenrola-o. Enche-o de manteiga de amendoim. Espalha lubrificante e segura-o debaixo de água. Agora tenta rasgá-lo. Tenta parti-lo ao meio. É demasiado resistente e elástico. É tão viscoso que não o consegues agarrar.
Um preservativo de pele de carneiro, não passa de intestino velho.
Agora consegues ver contra o que estou a lutar.
Largas por um segundo e és estripado.
Nadas até à superfície, para respirar, e és estripado.
Não nadas e afogas-te.
É uma escolha entre morrer neste momento ou daqui a um momento.
O que os meus pais vão encontrar depois do trabalho é este grande feto nu, enrolado em si próprio. Flutuando na água enevoada da sua piscina nas traseiras. Agarrado ao fundo por uma corda grossa de veias e tripas torcidas. O oposto de um miúdo que se enforcou enquanto se masturbava. Este é o bebé que eles trouxeram para casa do hospital há treze anos atrás. Aqui está o miúdo que eles esperavam conseguir uma bolsa de estudos de desporto para tirar um mestrado. Que tomaria conta deles na sua velhice. Aqui estão todos os seus sonhos e esperanças. A flutuar aqui, nu e morto. À sua volta grandes pérolas leitosas de esperma desperdiçado.
Ou isso ou os meus pais encontram-me enrolado numa toalha ensanguentada, caído a meio da piscina e do telefone da cozinha, um pedaço esfarrapado das minhas tripas ainda a sair da perna dos meus calções às riscas amarelas.
O que nem sequer os franceses falam.
Aquele irmão marinheiro mais velho ensinou-nos outra frase fixe.
Uma frase russa. A forma como nós dizemos “ preciso tanto disso como de um olho do cu na cabeça”, os russos dizem “ preciso tanto disso como de dentes no meu olho do cu.”
Mnye etoh nadoh kahk zoobee v zadnetze.
Aquelas historias que ouvimos acerca de animais apanhados numa armadilha e que roem a própria pata para se libertarem, bem, qualquer coiote te dirá que isso é bem melhor do que estar morto.
Porra… mesmo que sejas russo, um dia podes vir a precisar desses dentes.
O que tens de fazer é virar-te. Enganchar o antebraço por detrás do teu joelho e puxar essa perna até à tua cara. Tu mordes e agarras o teu próprio rabo. Ficas sem ar e mastigas através seja do que for para conseguires respirar.
Não é uma coisa que tu queiras dizer a uma rapariga na vossa primeira saída. Não se esperas um beijo de boa noite.
Se eu vos dissesse ao que sabia vocês nunca mais comeriam lulas.
É difícil de dizer o que enojou mais os meus pais: se a forma como me meti em problemas ou a forma como me salvei. Depois do hospital a minha mãe disse, “tu não sabias o que estavas a fazer, querido. Estavas em choque”. E aprendeu a cozinhar ovos escalfados.
Todas aquelas pessoas enojadas ou com pena de mim….
Preciso disso como de dentes no meu olho do cu.
Hoje em dia as pessoas dizem-me sempre que estou magro demais. Pessoas em jantares festivos ficam muito caladas e chateadas quando eu não toco no cozido que cozinharam. Os cozidos matam-me. Presunto assado. Qualquer coisa que passe mais de um par de horas nas minhas entranhas sai ainda comida. Com o feijão verde cozinhado em casa ou pedaços maiores de atum levanto-me e encontro-os intocados na sanita.
Depois de terem feito uma remição intestinal radical não digerem a carne por aí além. A maior parte das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu já tenho muita sorte em ter os meus 15 centímetros. Afinal, nunca tive uma bolsa de estudos de desporto. Nunca tirei um mestrado. Ambos os meus amigos, o miúdo da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca engordei um quilo mais do que pesava naquele dia quando tinha 13 anos.
Outro grande problema foi que os meus pais pagaram muito dinheiro pela piscina. No final o meu pai disse ao gajo da limpeza de piscinas que foi um cão a fazer aquilo. O cão da nossa família caiu lá dentro e afogou-se. O corpo foi puxado pelo filtro. Mesmo quando o gajo abriu a caixa do filtro e descobriu um tubo viscoso, um pedaço de intestino escorregadio com uma grande pastilha laranja lá dentro, mesmo aí, o meu pai simplesmente disse, “Aquele cão era um maluco do caralho”.
Mesmo da janela do meu quarto, no segundo andar, conseguia ouvir o meu velho a dizer “Não podíamos deixar aquele cão sozinho durante um segundo…”
Nessa altura o período da minha irmã não veio.
Mesmo depois de eles mudarem a água da piscina, depois de venderem a casa e nos termos mudado para outro estado, depois de a minha irmã abortar, mesmo aí os meus pais não mencionaram nada outra vez.
Nunca
É esta a cenoura invisível da minha família.
Agora podes inspirar bem fundo.
É que eu ainda não consegui.



Peço imensa desculpa pelo tamanho deste post mas o texto original é já de si muito longo.
Se chegaram até ao fim, muito obrigado! Demorou muito tempo a traduzir!

1 comentário:

sweetsweet disse...

Esse conto é mesmo genial.
Estou esperando para poder comprar o livro todo.